por Eliana Belo
Epidemias e Pandemias
Em 1974 eu estudava no Randolfo, na quarta série. Tinha três professoras: a D. Suzanna Ayres, D. Cinira e D. Inês de Barros Furlan, mas esta última minha preferida. E foi justamente ela, que explicava tão bem (esse é o principal parâmetro que eu tinha – e permaneci com ele até hoje – para avaliar uma boa educadora) que chegou na classe e disse, sem dar chances para perguntas:
– Depois de amanhã todo mundo vai tomar vacina aqui na escola.
A gurizada entrou em pandemônio.
_ Vacina? Na escola? De injeção? Com agulha? Por quê?
Choveu ‘porques’ de tudo quanto foi tipo, acompanhados ou não de choros contidos e – é claro – de cinismo dos mais masoquistas (tenho certeza que na minha classe tinha criança desse tipo). Fiquei aterrorizada.
Não pela vacina. Nego isso até hoje, afinal, nunca haveria de demonstrar na frente de ninguém que eu tinha medo de injeção.
O que me apavorou foi o silêncio dela. Silêncio que eu só entenderia muitos anos depois, quando já estava cursando História, e estudávamos a ‘Revolta da Vacina’ que ocorreu no Rio de Janeiro e nossa discussão enveredou para o surto de meningite meningocócica que tivemos no Estado de São Paulo naqueles idos anos em que o povão – totalmente desinformado sobre a epidemia – esperava ansiosamente a mesma performance que a Seleção Canarinho havia alcançado em 1970.
Dona Inês não respondeu porque simplesmente não tinha as informações corretas para serem repassadas. E naquele momento, o pânico misturado com a algazarra neurótica da criançada só passou quando o sinal tocou e todos saíram em desabalada correria para merendar.
Mas chegando em casa, meu pesadelo – e acho que de todos – voltou. Desta vez era o silêncio da minha mãe, que dizia que alguém tinha falado para ela que a vacina era para prevenir a meningite, que eu sempre tomava vacina quietinha quando era bebê (soube então que minha habilidade em dissimular já era antiga) e que era para eu ir na fila e tomar a vacina quietinha.
E foi assim que aconteceu. Umas pessoas sinistras chegaram na escola, uma fila imensa foi feita no pátio e a gurizada foi sendo vacinada com um ‘revolvinho’ abastecido sei lá como, todos com a mesma agulha. Se trocaram em algum momento, ninguém viu. Ui!
Uma feridinha apareceu no braço e as impressões, dores, empurra-empurra na fila e outros assuntos correlatos perduraram durante uns… três dias. Depois o silêncio voltou, o fato foi esquecido e o que voltou a importar era o mesmo assunto de sempre: o que teria na merenda?
É… A desinformação é o maior fator de propagação de doenças. E na época, no auge do Regime Militar, a epidemia foi tratada tal qual inimigo político preso em um porão: as informações ficaram presas, torturadas… e sucumbiram. A imprensa foi proibida de divulgar o que realmente estava acontecendo, e o povão desconhecia quais eram os sintomas, os sinais, quando ir ou não para o hospital, quais eram as medidas preventivas e – claro – qual era a dimensão da epidemia. Qualquer médico, jornalista da Área da Saúde ou pessoa um pouco mais antenada sabe que o primeiro caminho para conter uma doença bacteriana ou viral é procurar o foco inicial para dar início a um plano de contingência. E não dá para fazer nenhuma contenção sem informação. A mídia seria um excelente remédio de prevenção!
Mas não… os fardados, aqueles nefastos, ficaram calados e fizeram calar. Afinal, não poderiam expor que havia um inimigo ameaçando o ‘país de Alice’ que eles insistiam em propagar. E a meningite ceifou muitas vidas, que foram a óbito pela desinformação, uma vez que não tiveram chance de chegar no momento adequado às mãos dos médicos.
Foram pessoas levadas para a sepultura para não macular a imagem do país. Que nojo.
E agora, no século 21, com toda a tecnologia que temos, eis que uma nova epidemia está nos ameaçando novamente. Só que agora é diferente. A informação flui com a rapidez de um clique em um teclado, cientistas do mundo todo compartilham informações instantaneamente e para acabar com ela o que é necessário? Acabar com o foco de um mosquito chamado Aedes aegypti, vetor de doenças como febre amarela (que Oswaldo Cruz tentou erradicar), dengue, chikungunya e a terrível zika vírus.

