{"id":8435,"date":"2016-05-13T11:43:47","date_gmt":"2016-05-13T11:43:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=8435"},"modified":"2016-05-13T11:43:47","modified_gmt":"2016-05-13T11:43:47","slug":"identidade-indaiatubana-13052016","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/identidade-indaiatubana-13052016\/","title":{"rendered":"Identidade Indaiatubana 13\/05\/2016"},"content":{"rendered":"<p><strong>por Eliana Belo<\/strong><\/p>\n<p>Epidemias e Pandemias<\/p>\n<p>Em 1974 eu estudava no Randolfo, na quarta s\u00e9rie. Tinha tr\u00eas professoras: a D. Suzanna Ayres, D. Cinira e D. In\u00eas de Barros Furlan, mas esta \u00faltima minha preferida. E foi justamente ela, que explicava t\u00e3o bem (esse \u00e9 o principal par\u00e2metro que eu tinha &#8211; e permaneci com ele at\u00e9 hoje &#8211; para avaliar uma boa educadora) que chegou na classe e disse, sem dar chances para perguntas:<br \/>\n&#8211; Depois de amanh\u00e3 todo mundo vai tomar vacina aqui na escola.<br \/>\nA gurizada entrou em pandem\u00f4nio.<br \/>\n_ Vacina? Na escola? De inje\u00e7\u00e3o? Com agulha? Por qu\u00ea?<br \/>\nChoveu \u2018porques\u2019 de tudo quanto foi tipo, acompanhados ou n\u00e3o de choros contidos e &#8211; \u00e9 claro &#8211; de cinismo dos mais masoquistas (tenho certeza que na minha classe tinha crian\u00e7a desse tipo). Fiquei aterrorizada.<br \/>\nN\u00e3o pela vacina. Nego isso at\u00e9 hoje, afinal, nunca haveria de demonstrar na frente de ningu\u00e9m que eu tinha medo de inje\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO que me apavorou foi o sil\u00eancio dela. Sil\u00eancio que eu s\u00f3 entenderia muitos anos depois, quando j\u00e1 estava cursando Hist\u00f3ria, e estud\u00e1vamos a \u2018Revolta da Vacina\u2019 que ocorreu no Rio de Janeiro e nossa discuss\u00e3o enveredou para o surto de meningite meningoc\u00f3cica que tivemos no Estado de S\u00e3o Paulo naqueles idos anos em que o pov\u00e3o &#8211; totalmente desinformado sobre a epidemia &#8211; esperava ansiosamente a mesma performance que a Sele\u00e7\u00e3o Canarinho havia alcan\u00e7ado em 1970.<br \/>\nDona In\u00eas n\u00e3o respondeu porque simplesmente n\u00e3o tinha as informa\u00e7\u00f5es corretas para serem repassadas. E naquele momento, o p\u00e2nico misturado com a algazarra neur\u00f3tica da crian\u00e7ada s\u00f3 passou quando o sinal tocou e todos sa\u00edram em desabalada correria para merendar.<br \/>\nMas chegando em casa, meu pesadelo &#8211; e acho que de todos &#8211; voltou. Desta vez era o sil\u00eancio da minha m\u00e3e, que dizia que algu\u00e9m tinha falado para ela que a vacina era para prevenir a meningite, que eu sempre tomava vacina quietinha quando era beb\u00ea (soube ent\u00e3o que minha habilidade em dissimular j\u00e1 era antiga) e que era para eu ir na fila e tomar a vacina quietinha.<br \/>\nE foi assim que aconteceu. Umas pessoas sinistras chegaram na escola, uma fila imensa foi feita no p\u00e1tio e a gurizada foi sendo vacinada com um \u2018revolvinho\u2019 abastecido sei l\u00e1 como, todos com a mesma agulha. Se trocaram em algum momento, ningu\u00e9m viu. Ui!<br \/>\nUma feridinha apareceu no bra\u00e7o e as impress\u00f5es, dores, empurra-empurra na fila e outros assuntos correlatos perduraram durante uns&#8230; tr\u00eas dias. Depois o sil\u00eancio voltou, o fato foi esquecido e o que voltou a importar era o mesmo assunto de sempre: o que teria na merenda?<br \/>\n\u00c9&#8230; A desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 o maior fator de propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as. E na \u00e9poca, no auge do Regime Militar, a epidemia foi tratada tal qual inimigo pol\u00edtico preso em um por\u00e3o: as informa\u00e7\u00f5es ficaram presas, torturadas&#8230; e sucumbiram. A imprensa foi proibida de divulgar o que realmente estava acontecendo, e o pov\u00e3o desconhecia quais eram os sintomas, os sinais, quando ir ou n\u00e3o para o hospital, quais eram as medidas preventivas e &#8211; claro &#8211; qual era a dimens\u00e3o da epidemia. Qualquer m\u00e9dico, jornalista da \u00c1rea da Sa\u00fade ou pessoa um pouco mais antenada sabe que o primeiro caminho para conter uma doen\u00e7a bacteriana ou viral \u00e9 procurar o foco inicial para dar in\u00edcio a um plano de conting\u00eancia. E n\u00e3o d\u00e1 para fazer nenhuma conten\u00e7\u00e3o sem informa\u00e7\u00e3o. A m\u00eddia seria um excelente rem\u00e9dio de preven\u00e7\u00e3o!<br \/>\nMas n\u00e3o&#8230; os fardados, aqueles nefastos, ficaram calados e fizeram calar. Afinal, n\u00e3o poderiam expor que havia um inimigo amea\u00e7ando o \u2018pa\u00eds de Alice\u2019 que eles insistiam em propagar. E a meningite ceifou muitas vidas, que foram a \u00f3bito pela desinforma\u00e7\u00e3o, uma vez que n\u00e3o tiveram chance de chegar no momento adequado \u00e0s m\u00e3os dos m\u00e9dicos.<br \/>\nForam pessoas levadas para a sepultura para n\u00e3o macular a imagem do pa\u00eds. Que nojo.<br \/>\nE agora, no s\u00e9culo 21, com toda a tecnologia que temos, eis que uma nova epidemia est\u00e1 nos amea\u00e7ando novamente. S\u00f3 que agora \u00e9 diferente. A informa\u00e7\u00e3o flui com a rapidez de um clique em um teclado, cientistas do mundo todo compartilham informa\u00e7\u00f5es instantaneamente e para acabar com ela o que \u00e9 necess\u00e1rio? Acabar com o foco de um mosquito chamado Aedes aegypti, vetor de doen\u00e7as como febre amarela (que Oswaldo Cruz tentou erradicar), dengue, chikungunya e a terr\u00edvel zika v\u00edrus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Eliana Belo Epidemias e Pandemias Em 1974 eu estudava no Randolfo, na quarta s\u00e9rie. Tinha tr\u00eas professoras: a D. Suzanna Ayres, D. Cinira e D. In\u00eas de Barros Furlan, mas esta \u00faltima minha preferida. 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