{"id":34029,"date":"2021-11-12T11:25:06","date_gmt":"2021-11-12T11:25:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=34029"},"modified":"2021-11-12T11:25:12","modified_gmt":"2021-11-12T11:25:12","slug":"hora-de-rever-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/hora-de-rever-a-vida\/","title":{"rendered":"Hora de rever a vida"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje, tomo a liberdade de fazer uma reflex\u00e3o sobre a vida. Valho-me, inicialmente, de S\u00eaneca com seu pux\u00e3o de orelhas: \u201csomos gerados para uma curta exist\u00eancia. A vida \u00e9 breve e a arte \u00e9 longa. Est\u00e1 errado. N\u00e3o dispomos de pouco tempo, mas desperdi\u00e7amos muito. A vida \u00e9 longa o bastante e nos foi generosamente concedida para a execu\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es as mais importantes, caso toda ela seja bem aplicada. Por\u00e9m, quando se dilui no luxo e na pregui\u00e7a, quando n\u00e3o \u00e9 despendida em nada de bom, somente ent\u00e3o, compelidos pela necessidade derradeira, aquela que n\u00e3o hav\u00edamos percebido passar, sentimos que j\u00e1 passou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida passa e n\u00e3o percebemos o quanto ela avan\u00e7ou. De repente, damo-nos conta de que o tempo que gastamos foi usado de maneira f\u00fatil, sem percebermos que nossos dias finais chegam rapidamente, trazidos pela cegueira de darmos valor \u00e0 coisas que desperdi\u00e7am nossa aten\u00e7\u00e3o, guiados pelo voluntarismo que nos aproxima da materialidade cheia de magia da vida material. \u00c9 a preocupa\u00e7\u00e3o exagerada com a est\u00e9tica, \u00e9 a discuss\u00e3o radical que n\u00e3o faz crescer a pessoa, \u00e9 o pingo de azeite que mancha nossa gravata, a ponto de consumirmos um bom tempo para deix\u00e1-la limpa e sem mancha.<\/p>\n\n\n\n<p>Buscamos os apetrechos de uma vida f\u00fatil, imbu\u00eddos da cultura do entretenimento ou encantados com a perspectiva de cercarmos nosso dia a dia com os adere\u00e7os do espet\u00e1culo formado por um conjunto de rotinas onde se destacam a vontade de aparecer, do brilhareco passageiro e competitivo que se cria em torno das pessoas, do estilo \u201cficar na onda\u201d. No fundo, cada qual quer ser melhor do que seu semelhante.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estou a me referir ao prazer das coisas boas \u2013 um bom vinho, uma boa conversa, um bom filme, um bom livro \u2013 nem livrar ningu\u00e9m de seus hobbies. O que est\u00e1 em tela nesta modesta reflex\u00e3o \u00e9 o desvio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 frivolidade, ao universo dos movimentos in\u00fateis que fazem gastar o tempo que temos, adiando coisas priorit\u00e1rias, incutindo-nos a cultura do \u201cdeixa para amanh\u00e3\u201d, sob a for\u00e7a de uma certeza que tenta justificar todos os atos. O que nos leva \u00e0 inexor\u00e1vel verdade de que padecemos de uma grande mentira, a mentira que invade todos os poros, incluindo povos e Na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Como lembra S\u00eaneca, a vida se divide em tr\u00eas temos: o que foi, o que \u00e9 e o que ser\u00e1. Destes, aquilo que vivemos no presente \u00e9 breve, o que viveremos \u00e9 d\u00fabio, o que vivemos no passado \u00e9 certo. Aos atarefados \u201cdiz respeito apenas o tempo presente, que \u00e9 demasiado breve para ser capturado, e mesmo este \u00e9 subtra\u00eddo \u00e0queles distra\u00eddos em muitas ocupa\u00e7\u00f5es\u201d. Ao contr\u00e1rio, uma mente l\u00f3gica, fonte de paz e harmonia funciona como uma b\u00fassola a mostrar o caminho do vento, as veredas do caminho, os focos a atingir, os objetivos a alcan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida s\u00f3 \u00e9 mesmo sentida e percebida diante dos grandes riscos que enfrentamos, do medo que avan\u00e7a ante o desconhecido e que amea\u00e7a consumir nossas energias, do perigo a que somos levados quando nosso corpo tem dificuldades de administrar as intemp\u00e9ries do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta resistir aos contratempos que aparecem, quando menos se espera, e que servem como massa de manobra de certa categoria de protagonistas, como os individualistas, os populistas, os demagogos, os negacionistas, os obscuros, os oportunistas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 de surgir um novo tempo na vida de quem quer mudar. Ruim \u00e9 ficar na mesma condi\u00e7\u00e3o, prezando tudo aquilo que \u00e9 dispens\u00e1vel. H\u00e1 de renascer na mente daqueles que querem enfrentar a vida sem dribles e de maneira aut\u00eantica um novo olhar sobre sua pr\u00f3pria identidade. \u00c9 hora de mudar. \u00c9 hora de rever os horizontes. \u00c9 hora de ver o sol nascer e se p\u00f4r sem vista emba\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Gaud\u00eancio Torquato \u00e9 jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor pol\u00edtico Twitter@gaudtorquato).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, tomo a liberdade de fazer uma reflex\u00e3o sobre a vida. Valho-me, inicialmente, de S\u00eaneca com seu pux\u00e3o de orelhas: \u201csomos gerados para uma curta exist\u00eancia. A vida \u00e9 breve e a arte \u00e9 longa. Est\u00e1 errado. N\u00e3o dispomos de pouco tempo, mas desperdi\u00e7amos muito. 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