{"id":16418,"date":"2017-09-29T14:17:49","date_gmt":"2017-09-29T14:17:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=16418"},"modified":"2017-09-29T14:17:49","modified_gmt":"2017-09-29T14:17:49","slug":"o-de-costume","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/o-de-costume\/","title":{"rendered":"O de costume"},"content":{"rendered":"<p>Fazia quinze dias que eu estava em f\u00e9rias escolares na casa de meu av\u00f4 Juca. Aos s\u00e1bados, \u00e0 noite, ele e seus amigos costumavam reunir-se no restaurante de idosos para ouvir tangos e boleros. Quer ir comigo esquentar o est\u00f4mago, Walter? &#8211; perguntou meu av\u00f4, contente, esfregando as m\u00e3os uma \u00e0 outra.<br \/>\n&#8211; Se quero? L\u00f3gico, que quero! &#8211; respondi. Minha av\u00f3, por perto, logo estrilou: onde se viu sair de casa com todo esse frio? Voc\u00ea n\u00e3o tem miolos, Juca? Os jantares costumam demorar, e uma crian\u00e7a n\u00e3o aguenta ficar de est\u00f4mago vazio, ouvindo macacoas de gente velha. Afinal, j\u00e1 crescidinho, com os bem contados 15 anos, n\u00e3o queria perder a oportunidade de privar com gente de mais idade e ouvir relatos de experi\u00eancia de vida que n\u00f3s jovens nem imaginamos. E variar de comida. Chegamos ao restaurante. Logo de in\u00edcio, despertou-me a curiosidade a ambul\u00e2ncia estacionada \u00e0 porta: vov\u00f4, por que a ambul\u00e2ncia parada ali? O restaurante a contrata para casos de emerg\u00eancia, em dias de movimento. \u00c0s vezes, colegas mais gulosos abusam e engolem algumas letrinhas a mais. Letrinhas? Que letrinhas? N\u00e3o se apresse! Logo voc\u00ea vai ficar sabendo. Na sala de jantar, os cumprimentos de meu av\u00f4 com a cabe\u00e7a, os olhos buscando localizar a mesa dos companheiros. De passagem, um dedo de prosa com um, uma conversa com outro, abra\u00e7os, aperto de m\u00e3os. Este \u00e9 meu neto Walter, com \u2018w\u2019 apresentou-me meu av\u00f4 Juca. Chegou de Minas e vai passar alguns dias comigo. Ora! Ora! Muito prazer! Como tem passado o Walter, com \u2018w\u2019? Bem, obrigado! respondi meio acanhado. Sentamo-nos \u00e0 mesa.<br \/>\nAlguma novidade, depois de nosso \u00faltimo encontro? perguntou-lhes meu av\u00f4. Assim. N\u00e3o me tenho sentindo bem com esse frio &#8211; respondeu um deles. Respiro com dificuldade. O Dr. Ben\u00ea j\u00e1 me proibiu fumar, mas n\u00e3o deu a receita que seria \u2018tiro e queda\u2019 para eu deixar o cigarro. J\u00e1 deixei de fumar centena de vezes \u2013 interveio outro, sorrindo. Depois daquela esfrega que me combaliu, tenho procurado evitar a repeti\u00e7\u00e3o do desastre. Como diz o ditado: \u201cgato escaldado de \u00e1gua fria tem medo\u201d. O meu problema \u00e9 o raio do colesterol \u2013 reclamou outro. Tenho feito o maior sacrif\u00edcio para mant\u00ea-lo domado dentro de seus limites. Falou certo. O colesterol n\u00e3o d\u00e1 nenhum aviso. Se os \u2018engenheiros\u2019 da cirurgia n\u00e3o acodem logo, construindo pontes de safena. Nem \u00e9 bom pensar no resultado. Eu os ouvia mortificado. Em conversa de gente grande, crian\u00e7a n\u00e3o mete o bedelho, dizia minha m\u00e3e. \u00c0quela altura, mais de 8h da noite, eu j\u00e1 me havia arrependido de n\u00e3o ter dado ouvidos a minha av\u00f3 e ficado quietinho em casa. Eu costumava jantar \u00e0s 6h. A conversa parecia nunca chegar ao fim. S\u00f3 doen\u00e7as e rem\u00e9dios. Eu n\u00e3o podia imaginar como em corpos t\u00e3o franzinos, como os de alguns deles, pudesse habitar tamanha variedade de mol\u00e9stias e dores. Sentia o cheirinho apetitoso que vinha das mesas vizinhas. Feijoadas, leitoas, espetos de pintado, pernil assado constavam do card\u00e1pio bem vis\u00edvel \u00e0 entrada do restaurante. Meu est\u00f4mago foI suportando como p\u00f4de. Coitado! Gemia, roncava, gritava, e eu sem recursos para socorr\u00ea-lo. Felizmente, a conversa foi-se esfriando. A um sinal de meu av\u00f4, o gar\u00e7om aproximou-se de nossa mesa e perguntou: j\u00e1 posso servir \u2018o de costume\u2019, doutor?<br \/>\n&#8211; Sim, sem tirar nem p\u00f4r. O gar\u00e7om apareceu em seguida com a panela fumegando e a dep\u00f4s na mesa. Confesso que mal contive o \u00edmpeto de servir-me primeiro, tamanha a fome. N\u00e3o o fiz por respeito aos mais idosos. Meu av\u00f4 Juca destampou a panela. Cheirou-a demoradamente, estalou a l\u00edngua. Um sorriso de crian\u00e7a esfaimada alumiou-lhe a fisionomia. A panela com certeza continha a tradicional feijoada, pr\u00f3pria das t\u00e3o frias noites, foi o que pensei e at\u00e9 louvei a inteligente escolha. Como eu era louco por feijoadas! Sopa de macarr\u00e3o? perguntei, procurando ao mesmo tempo ocultar meu desapontamento. Sim. Muito saborosa. Garanto que vai gostar. Meu av\u00f4 e os amigos, agora mudos, devoravam \u2018o de costume\u2019 com insaci\u00e1vel gula. Para disfar\u00e7ar minha decep\u00e7\u00e3o, ora eu levava a colher vazia \u00e0 boca, ora tentava formar meu nome, procurando no fundo do prato as letrinhas de macarr\u00e3o da fumegante sopa. Mas havia muitas repetidas, e eu n\u00e3o encontrava o \u2018w\u2019, por mais que fixasse os olhos e remexesse com a colher o fundo do prato. Ser\u00e1 que exclu\u00edram o \u2018w\u2019 at\u00e9 nas sopas? perguntei-me, enfezado. Tomaram toda a sopa da panela. N\u00e3o se salvou nenhuma vogal ou consoante. Limpando a boca com o guardanapo e a afrouxar o cinto que lhe comprimia a barriga avolumada com os milhares de letrinhas ingeridas, meu av\u00f4 pediu a conta, sorrindo e satisfeito da vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazia quinze dias que eu estava em f\u00e9rias escolares na casa de meu av\u00f4 Juca. 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