{"id":15481,"date":"2017-08-04T11:59:05","date_gmt":"2017-08-04T11:59:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=15481"},"modified":"2017-08-04T11:59:05","modified_gmt":"2017-08-04T11:59:05","slug":"o-caco-de-telha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/o-caco-de-telha\/","title":{"rendered":"O caco de telha"},"content":{"rendered":"<p>Choveu quase todos os dias da semana. N\u00f3s, meninos, n\u00e3o pod\u00edamos jogar pi\u00f5es e bolinhas de gude na terra encharcada, nem empinar papagaios. Eu ansiava por qualquer distra\u00e7\u00e3o que me tirasse de casa.<br \/>\nO s\u00e1bado amanheceu com sol.<br \/>\n&#8211; Vamos ca\u00e7ar passarinhos no quintal? convidou-me o mano Pedrinho. Armamos o al\u00e7ap\u00e3o e a arapuca. Agachados atr\u00e1s das \u00e1rvores, come\u00e7amos a espreitar a aproxima\u00e7\u00e3o dos p\u00e1ssaros.<br \/>\n&#8211; Psiu! Fique calado, Pedrinho. Um canarinho cabe\u00e7a de fogo est\u00e1 no galho daquela \u00e1rvore. O can\u00e1rio saltou da \u00e1rvore \u00e0 gaiola, espantou-se e voou para longe. Cansado de esperar \u00e0 sua volta, ou a de outros, achei melhor entrar em casa e terminar os deveres da escola, quando algu\u00e9m me chamou do outro lado da cerca. Era o Ab\u00edlio, menino gorducho e descorado. O que voc\u00ea quer, Ab\u00edlio? \u2013 perguntei por perguntar, sem nenhum interesse em saber o que ele queria. Olhe ali.<br \/>\nO Ab\u00edlio apontou o bra\u00e7o para o quintal da vizinha D. Margarida. V\u00e1rios sabi\u00e1s no mamoeiro bicavam as frutas. Minha m\u00e3e proibiu que brinc\u00e1ssemos com o Ab\u00edlio. Vamos derrubar os sabi\u00e1s a pedradas. Cada um pega uma pedra &#8211; ordenou o irrequieto moleque.<br \/>\nCome\u00e7amos o bombardeio, eu do quintal de casa, ele no de sua. Os sabi\u00e1s voejavam em redor do mamoeiro, iam embora e voltavam logo em seguida. E as pedras continuavam a cair. Ao ouvir o barulho na cobertura de zinco da cisterna de sua casa, D. Margarida saiu ao terreiro, viu-nos e pediu, com brandura, que par\u00e1ssemos de atirar pedras.<br \/>\n&#8211; Velha entojada. Enquanto eu n\u00e3o derrubar um sabi\u00e1, n\u00e3o sossego. Quero ver quem manda. Estou no quintal de minha casa.<br \/>\nDizendo uma por\u00e7\u00e3o de palavr\u00f5es, o Ab\u00edlio sumiu entre o arvoredo de seu quintal.<br \/>\nEu continuei a ca\u00e7a. A teimosia dos sabi\u00e1s, a nossa m\u00e1 pontaria e o vexame de nenhum ca\u00e7ador t\u00ea-los atingido com tantas pedradas, tudo contribuiu para eu n\u00e3o desistir de derrubar ao menos um. D. Margarida virou as costas e dirigiu-se para o tanque ao lado da porta da cozinha. Eu a perdi de vista. O Ab\u00edlio tinha raz\u00e3o. Desaforo mesmo. Agora, \u00e9 que vou derrubar um sabi\u00e1.<br \/>\nMirei bem o alvo e arremecei com toda for\u00e7a uma pedra. Depois, outra e mais outra. Nunca acertava o alvo. N\u00e3o demorou muito, o mano Pedrinho gritou, branco de susto:<br \/>\n&#8211; Nossa m\u00e3e! D. Margarida caiu perto do tanque. Acho que algu\u00e9m acertou uma pedrada na cabe\u00e7a dela. E se eu errei a pontaria? Tremi de medo, com a d\u00favida. Cuidei logo de correr para casa. Fechei-me no quarto. Eram 4 horas da tarde. Antes, os dias t\u00e3o curtos mal davam para eu molecar um pouco e depois estudar os pontos da escola. Agora, o tempo da ansiosa espera arrastava-se tenebroso e n\u00e3o acabava mais. O mano n\u00e3o tinha sossego. Ora estava comigo, ora na rua, sempre me trazendo informa\u00e7\u00f5es que eu n\u00e3o queria ouvir.<br \/>\n&#8211; Chi! A casa dela est\u00e1 cheia de gente. Ouvi dizer que chamaram um m\u00e9dico e deram parte ao delegado. O que voc\u00ea vai fazer.- Sei l\u00e1! Se fui eu o culpado, esperar o castigo.<br \/>\nA mais recente not\u00edcia do Pedrinho: o m\u00e9dico disse que foi um caco de telha que feriu a cabe\u00e7a da mulher. Eu acho que foi voc\u00ea. T\u00e1 maluco, eu n\u00e3o atirei nenhum caco de telha, s\u00f3 pedras. Ser\u00e1 que n\u00e3o foi o Ab\u00edlio? Minha situa\u00e7\u00e3o complicava-se a cada momento. \u00c0 espera do delegado, com dois carrancudos meganhas, bater \u00e0 porta de casa e levar-me preso era o come\u00e7o de minha expia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMeu pai trabalhava no com\u00e9rcio. Se algum motivo o retesse no servi\u00e7o at\u00e9 a noite, ele n\u00e3o chegaria a tempo de encontrar-me acordado. Era nosso costume ir cedinho para a cama. Embora soubesse do ocorrido, e eu o culpado, talvez deixasse o castigo para a manh\u00e3 seguinte. Enquanto isso, arrefecia-lhe a c\u00f3lera, e o castigo seria mais brando. Imposs\u00edvel ficar impune.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Choveu quase todos os dias da semana. N\u00f3s, meninos, n\u00e3o pod\u00edamos jogar pi\u00f5es e bolinhas de gude na terra encharcada, nem empinar papagaios. Eu ansiava por qualquer distra\u00e7\u00e3o que me tirasse de casa. O s\u00e1bado amanheceu com sol. &#8211; Vamos ca\u00e7ar passarinhos no quintal? convidou-me o mano Pedrinho. Armamos o al\u00e7ap\u00e3o e a arapuca. 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