{"id":15359,"date":"2017-07-28T12:11:53","date_gmt":"2017-07-28T12:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=15359"},"modified":"2017-07-28T12:11:53","modified_gmt":"2017-07-28T12:11:53","slug":"a-farmacia-do-seu-paschoal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/a-farmacia-do-seu-paschoal\/","title":{"rendered":"A farm\u00e1cia do seu Paschoal"},"content":{"rendered":"<p>Logo que o doutor saiu, a m\u00e3e pediu ao filho Dudu que fosse comprar os rem\u00e9dios da receita. Havia em seu tom de voz s\u00faplica e ao mesmo tempo ordem, a que o bom filho n\u00e3o podia deixar de atender.<br \/>\nLembrou ainda a Dudu a recomenda\u00e7\u00e3o do Dr. J\u00falio:<br \/>\n&#8211; V\u00e1 buscar os rem\u00e9dios na farm\u00e1cia do seu Paschoal.<br \/>\n&#8211; Com que dinheiro, m\u00e3e? Os trinta centavos que eu tinha, ontem deixei no cofre das esmolas de S\u00e3o Vicente.<br \/>\n&#8211; Muito bem-feito! Traga ao menos uma aspirina.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bem. m\u00e3e.<br \/>\nCom a caixa de engraxate nas costas e dor no cora\u00e7\u00e3o, Dudu caminhava incans\u00e1vel pelas ruas da cidade, atr\u00e1s de fregueses, sempre apregoando os seus servi\u00e7os:<br \/>\n&#8211; Uma graxinha a\u00ed, Doutor? R\u00e1pida e caprichada. Hoje, precinho especial.<br \/>\nEra tarde. Dudu n\u00e3o havia engraxado nenhum par de sapatos e precisava levar os rem\u00e9dios para seu pai. Indeciso, parou diante da farm\u00e1cia do seu Paschoal. Nos bolsos, apenas a receita do Dr. J\u00falio. Nem um vint\u00e9m. Como pedir os rem\u00e9dios fiado? Ele, engraxate, e filho de um aposentado que ningu\u00e9m tinha interesse em conhecer?<\/p>\n<p>II<br \/>\nQuem n\u00e3o conhecia na cidade o seu Paschoal, da Farm\u00e1cia V\u00f4mero? Qual pobre, ao menos uma vez, n\u00e3o se valeu da grande experi\u00eancia e bondade daquele que era mais m\u00e9dico que farmac\u00eautico, mais santo que homem? Por qualquer indisposi\u00e7\u00e3o, corriam \u00e0 sua farm\u00e1cia, e ele paciente e atencioso encontrava na prateleira o rem\u00e9dio certo para a cura ou al\u00edvio dos doentes.<br \/>\nO seu Paschoal costumava atender \u00e0 clientela a qualquer hora do dia ou da noite, n\u00e3o por gana ao lucro, mas pela satisfa\u00e7\u00e3o de prestar ajuda a quem na afli\u00e7\u00e3o nem sempre tinha outra porta a que bater \u00e0 procura de socorro. Quanto mais fora de hora o procurassem, maior a sua presteza no atendimento e sempre com palavras amigas e confortadoras:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o tem nada grave, amigo. Com este rem\u00e9dio, garanto que vai ficar ainda melhor.<br \/>\nNa cal\u00e7ada, \u00e0 porta da farm\u00e1cia, o seu Paschoal conversava com um velho amigo:<br \/>\n&#8211; Como est\u00e1 o movimento na farm\u00e1cia, seu Paschoal?<br \/>\n&#8211; Bom, muito bom. Gra\u00e7as a Deus, hoje foi dia calmo.<br \/>\n&#8211; Por que gra\u00e7as a Deus, seu Paschoal?<br \/>\n&#8211; Gra\u00e7as a Deus, porque ningu\u00e9m adoeceu grave, nem precisou de rem\u00e9dios&#8230;<br \/>\n&#8211; Assim, voc\u00ea nunca vai ficar rico \u2013 ca\u00e7oou o amigo.<br \/>\n&#8211; Nunca pensei em ficar rico. Ganho pouco, mas o bastante para manter a fam\u00edlia e ainda sobra para ajudar os que procuram a farm\u00e1cia. Cobro o pre\u00e7o justo, \u00e0s vezes a metade, ou nada, de quem n\u00e3o pode pagar.<br \/>\n&#8211; Eu sei de tudo isso, seu Paschoal. \u00c9 tamanha a gan\u00e2ncia pelo dinheiro que o homem n\u00e3o mede esfor\u00e7os para acumul\u00e1-lo a qualquer custo.<br \/>\n&#8211; Pois eu chego a ter pena do infeliz que precisa de muito dinheiro para viver \u2013 acrescentou o seu Paschoal.<\/p>\n<p>III<br \/>\nO seu Paschoal viu Dudu parado diante da farm\u00e1cia.<br \/>\n&#8211; Pode chegar, Dudu. Como est\u00e1 passando seu pai?<br \/>\n&#8211; Meu pai? Meu pai est\u00e1 doente&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu sei. Voc\u00ea trouxe a receita do Dr. Julio?<br \/>\n&#8211; Sim, senhor. Est\u00e1 aqui comigo, mas&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas o qu\u00ea?<br \/>\nDudu n\u00e3o respondeu logo. Depois, de cabe\u00e7a baixa, disse que n\u00e3o podia levar os rem\u00e9dios da receita, n\u00e3o tinha dinheiro.<br \/>\n&#8211; D\u00ea c\u00e1 a receita, menino! Ningu\u00e9m est\u00e1 falando em dinheiro.<br \/>\nO seu Paschoal ajeitou os \u00f3culos no nariz, voltou-se para as prateleiras e come\u00e7ou a separar os rem\u00e9dios e a anotar nos inv\u00f3lucros o modo de tom\u00e1-los recomendado pelo m\u00e9dico. Em seguida, embrulhou-os e os entregou a Dudu, dizendo:<br \/>\n&#8211; Leve os rem\u00e9dios para seu pai tomar agora mesmo. Se precisar de mais, volte c\u00e1. Entendeu bem, Dudu? V\u00e1 logo, correndo, correndo.<br \/>\n&#8211; Deus lhe pague, seu Pascoal.<br \/>\nEnquanto Dudu se afastava ligeiro e feliz com os rem\u00e9dios do pai, o seu Paschoal sorria, ainda mais feliz, sentindo-se bem pago pela oportunidade de juntar mais um bom investimento aos tantos que vinha fazendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo que o doutor saiu, a m\u00e3e pediu ao filho Dudu que fosse comprar os rem\u00e9dios da receita. Havia em seu tom de voz s\u00faplica e ao mesmo tempo ordem, a que o bom filho n\u00e3o podia deixar de atender. 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