{"id":15169,"date":"2017-07-14T12:07:10","date_gmt":"2017-07-14T12:07:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=15169"},"modified":"2017-07-14T12:07:10","modified_gmt":"2017-07-14T12:07:10","slug":"o-quintal-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/o-quintal-de-casa\/","title":{"rendered":"O quintal de casa"},"content":{"rendered":"<p>Quando nos mudamos da ro\u00e7a para a cidade, eu devia de ter sete ou oito anos. Chegamos empoleirados no velho caminh\u00e3o que transportava a mudan\u00e7a reduzida a alguns m\u00f3veis ainda aproveit\u00e1veis. Anoitecia. N\u00e3o me preocupei em conhecer as acomoda\u00e7\u00f5es da nova morada, se tinha assoalhos de madeira, luz el\u00e9trica, \u00e1gua encanada e quartos forrados e suficientes para alojar a fam\u00edlia, confortos que n\u00e3o havia na casa onde mor\u00e1vamos.<br \/>\nNa manh\u00e3 seguinte, bem cedinho e antes de tomar caf\u00e9, fui conhecer o quintal. Caminhava descal\u00e7o, a contar uma a uma as \u00e1rvores frut\u00edferas. Crescia o meu entusiasmo, \u00e0 medida que as ia identificando, carregadas de frutas e com a variedade de p\u00e1ssaros pousados em seus galhos.<br \/>\n&#8211; Puxa vida, quanto passarinho vou ca\u00e7ar!<br \/>\nO mato crescido e entrela\u00e7ado dificultava-me a caminhada. Mandacarus floridos e rodeados de abelhas zumbindo serviam de cercas em longos trechos, substituindo os moir\u00f5es apodrecidos.<\/p>\n<p>II<br \/>\nA custo, cheguei aos fundos do quintal, os p\u00e9s j\u00e1 cheios de espinhos. Ao longo da cerca, do nosso lado, descia estreito riacho, parcialmente encoberto pelo capim das margens.<br \/>\n&#8211; Meu Deus! Que beleza que encontrei! &#8211; exclamei, boquiaberto.<br \/>\nN\u00e3o resisti \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de vade\u00e1-lo. Arregacei a cal\u00e7a e meti-me na \u00e1gua. N\u00e3o era fundo. Minha primeira provid\u00eancia foi limpar as margens. Meus pais n\u00e3o se incomodavam quando me viam dentro dele. Afinal, n\u00e3o era rio caudaloso, cheio de grossos troncos escuros, que desciam silenciosos, boiando como jacar\u00e9s. Era inofensivo, de \u00e1guas claras e mansas, rolando, sempre rolando.<br \/>\nNas chuvas, as \u00e1guas do riacho avolumavam-se. Eu e o mano Pedro pesc\u00e1vamos de peneira fina os min\u00fasculos lambaris e peixes-sapo, para jog\u00e1-los no tanque \u00e0 porta da cozinha.<br \/>\n&#8211; Espanta eles para c\u00e1! Acho que um baita de cascudo est\u00e1 na peneira. Agora, mais devagar. Eu j\u00e1 vejo eles bem perto. Puxa vida, quanto lambari!<\/p>\n<p>III<br \/>\nChegando da escola, mal comia alguma coisa, corria para trepar nas \u00e1rvores. Havia as de galhos mais adequados para eu estudar as li\u00e7\u00f5es longe dos manos, as de fazer os exerc\u00edcios de barra, para criar muque e n\u00e3o apanhar de qualquer moleque metido a valente. Nas mais altas e copadas, eu me escondia de meus pais, quando descobriam algumas de minhas travessuras na rua ou na escola. Nessas ocasi\u00f5es, minha m\u00e3e sa\u00eda ao terreiro, olhava para um lado e outro e gritava repetidas vezes o meu nome.<br \/>\n&#8211; Jaime! Jaime! Onde voc\u00ea est\u00e1? Ser\u00e1 que o moleque ainda n\u00e3o chegou da escola? Deve estar aprontando alguma confus\u00e3o.<br \/>\nEu me fazia de surdo, embora achasse que n\u00e3o estava agindo direito. Deveria responder logo, descer da \u00e1rvore e aparelhar-me para receber o castigo, o mais das vezes bem merecido, mas que nem sempre vinha.<\/p>\n<p>IV<br \/>\nUm domingo, de manh\u00e3, vi passar na rua um pelot\u00e3o de soldados do tiro de guerra. Bela farda. Borzeguins lustrosos, fuzis nos ombros. Cheguei a invej\u00e1-los, por n\u00e3o estar entre eles. Afinal, eu podia considerar-me um pequeno soldado. Meu uniforme era a camisa aberta ao peito e a cal\u00e7a remendada; os p\u00e9s, sempre descal\u00e7os e sem a prote\u00e7\u00e3o de borzeguins; as armas, os dois estilingues; a muni\u00e7\u00e3o, as pedrinhas apanhadas nas margens do rio. As armas e as muni\u00e7\u00f5es, eu sempre as levava nos bolsos para ca\u00e7ar passarinhos, como se fossem meus inimigos. Quantos indefesos cacei! A cada morte, com o canivete eu fazia um corte na forquilha para depois mostrar aos amigos e vangloriar-me do feito. Um dia, somando as mortes anotadas nas forquilhas, senti remorsos. Pedi perd\u00e3o a Deus e procurei a remi\u00e7\u00e3o de meus crimes. Quebrei as forquilhas, arrebentei os el\u00e1sticos e, com a muni\u00e7\u00e3o, atirei tudo nas \u00e1guas do riacho. Nunca mais cacei. Durante algum tempo, ainda n\u00e3o me sentia remido de meus crimes.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando nos mudamos da ro\u00e7a para a cidade, eu devia de ter sete ou oito anos. Chegamos empoleirados no velho caminh\u00e3o que transportava a mudan\u00e7a reduzida a alguns m\u00f3veis ainda aproveit\u00e1veis. Anoitecia. N\u00e3o me preocupei em conhecer as acomoda\u00e7\u00f5es da nova morada, se tinha assoalhos de madeira, luz el\u00e9trica, \u00e1gua encanada e quartos forrados e &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[33],"tags":[2642],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15169"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15169"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15169\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15170,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15169\/revisions\/15170"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}