{"id":14884,"date":"2017-06-23T12:12:57","date_gmt":"2017-06-23T12:12:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=14884"},"modified":"2017-06-23T12:12:57","modified_gmt":"2017-06-23T12:12:57","slug":"a-dificil-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/a-dificil-liberdade\/","title":{"rendered":"A dif\u00edcil liberdade"},"content":{"rendered":"<p>Extenso e r\u00edgido o hor\u00e1rio de trabalho no banco. Filas de clientes apressados formavam-se no sal\u00e3o e diante dos guich\u00eas, sempre reclamando por qualquer demora no atendimento. Todos tinham raz\u00e3o, menos os funcion\u00e1rios. O servi\u00e7o sempre o mesmo, sem nenhuma altera\u00e7\u00e3o, dia ap\u00f3s dia, meses ap\u00f3s meses. S\u00f3 o sadismo do Chefe n\u00e3o se repetia. Beirava os cinquenta anos de idade e com mais de dez na ag\u00eancia. Sua f\u00e9rtil imagina\u00e7\u00e3o sempre encontrava inusitada forma de humilhar os subordinados e bajular os superiores, os importantes clientes e os pol\u00edticos. Julgava-se o dono da ag\u00eancia.<br \/>\n&#8211; Eu sou o banco! \u2013 proclamava a todo momento.<br \/>\nS\u00e9rgio come\u00e7ou a maldizer o dia em que deixou a administra\u00e7\u00e3o do s\u00edtio Rancho Fundo da fam\u00edlia, para ingressar no banco. Foi como se tivesse constru\u00eddo os grilh\u00f5es que o haveriam de prender entre quatro paredes com livros cont\u00e1beis e cofres abarrotados de dinheiro. Recordava-se das noites em que dormira sobre os livros, preparando-se para o concurso. Antes, achava aquilo uma sublima\u00e7\u00e3o.<br \/>\nS\u00e9rgio chegou tarde do banco. Nem teve tempo para brincar com o filho Rubinho que, com suas gracinhas, acalmava-o e o fazia esquecer as agruras de sua carreira. Jantou mal e \u00e0s pressas, abra\u00e7ou a mulher e o menino e voltou ao banco para terminar o balancete do m\u00eas. Estava sozinho. A mente e o corpo j\u00e1 exaustos. Pararam os toque-toques da m\u00e1quina. O pensamento foi-se libertando, libertando&#8230;Voltou apressado para casa. Nem a mulher, nem o filho o esperavam ao port\u00e3o, como de costume. Foi direto para o quarto. Ia fech\u00e1-lo. Norma apareceu e o interrogou com brandura e assustada:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea estava no banco at\u00e9 agora?<br \/>\nS\u00e9rgio n\u00e3o respondeu. Sentou-se na cama, apoiou a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os. Norma, de p\u00e9 \u00e0 sua frente, estava apreensiva com o mudismo do marido. Nunca o vira de fei\u00e7\u00f5es t\u00e3o alteradas. O sil\u00eancio foi interrompido por ele:<br \/>\n&#8211; Norma, n\u00e3o estou mais suportando a pris\u00e3o. A rotina do banco est\u00e1 me deixando maluco. J\u00e1 n\u00e3o suporto ver a cara do Chefe, nem o amontoado de pap\u00e9is que me sufoca. Vou sumir daqui para bem longe, sen\u00e3o um dia acabo fazendo uma loucura.- Sumir para onde, S\u00e9rgio.<br \/>\n&#8211; Para o Rancho Fundo.<br \/>\n&#8211; E o que vamos fazer l\u00e1?<br \/>\n-Amanh\u00e3, a gente conversa com calma. Agora est\u00e1 muito nervoso, e eu sem condi\u00e7\u00f5es de acreditar no que voc\u00ea disse.<br \/>\n&#8211; Se n\u00e3o quiser ir, fique com o Rubinho. Eu vou sozinho.<br \/>\nNorma estava at\u00f4nita com a estranha decis\u00e3o do marido. Seus pensamentos baralharam-se. Pensou no lar tranquilo, no filho sadio e feliz. N\u00e3o queria perder a vida confort\u00e1vel da cidade e temia a tristeza do desamparo e da solid\u00e3o. Deixar a casa adquirida com tanto sacrif\u00edcio e ainda n\u00e3o paga, o quintal com \u00e1rvores plantadas por eles, o jardim cuidado com muito carinho.<br \/>\nQuando o sol da manh\u00e3 despontava, S\u00e9rgio, a esposa e o filho achavam-se bem distantes da cidade. Estava liberto do banco. E cantava, e pulava, e abra\u00e7ava, ora o filho, ora a mulher.<br \/>\n&#8211; Liberdade! Viva a liberdade! \u2013 gritava ele, pulando de alegria.<br \/>\nEsquecia-se a acompanhar os p\u00e1ssaros em seus voos rasantes a tocarem as asas na cristalina \u00e1gua de sereno lago. Entretanto, nem a completa liberdade, nem a beleza das paisagens, nada impediu que o filho adoecesse. S\u00e9rgio entrou num lugarejo para cuidar dele. O m\u00e9dico estava ausente. Correu \u00e0 \u00fanica farm\u00e1cia, pediu um rem\u00e9dio para febre. O farmac\u00eautico olhou-o e \u00e0 mulher com o filho no colo:<br \/>\n&#8211; Custa vinte cruzeiros. S\u00e9rgio enfiou as m\u00e3os nos bolsos e retirou-as vazias e envergonhado. Gente, onde meti a carteira? Ser\u00e1 que o senhor&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o vendo fiado a estranhos.- Mas, senhor, meu filho est\u00e1 doente, com febre alta, e precisa do rem\u00e9dio. N\u00e3o sei como sa\u00ed de casa sem a carteira&#8230;<br \/>\n&#8211; Sem dinheiro, nada feito &#8211; concluiu o farmac\u00eautico, jogando o rem\u00e9dio na gaveta.S\u00e9rgio saiu da farm\u00e1cia cabisbaixo e mortificado.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Extenso e r\u00edgido o hor\u00e1rio de trabalho no banco. Filas de clientes apressados formavam-se no sal\u00e3o e diante dos guich\u00eas, sempre reclamando por qualquer demora no atendimento. Todos tinham raz\u00e3o, menos os funcion\u00e1rios. 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