{"id":14650,"date":"2017-06-09T12:14:06","date_gmt":"2017-06-09T12:14:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=14650"},"modified":"2017-06-09T12:14:06","modified_gmt":"2017-06-09T12:14:06","slug":"o-salto-mortal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/o-salto-mortal\/","title":{"rendered":"O salto mortal"},"content":{"rendered":"<p>Andavam quase em p\u00e9 de guerra as nossas rela\u00e7\u00f5es com certos filhinhos de papai da cidade, os quais aos domingos entenderam de invadir o nosso a\u00e7ude para nadar. Ora, se eles n\u00e3o tivessem onde nadar, v\u00e1 l\u00e1! Afinal, n\u00e3o \u00e9ramos ego\u00edstas. Tinham eles a sua piscina limpa, toda cal\u00e7ada em derredor &#8211; t\u00e3o diferente do nosso a\u00e7ude &#8211; sem o perigoso atoleiro nos fundos e os velhos troncos de \u00e1rvore boiando como jacar\u00e9s. Ainda zombavam do nosso modo de nadar sem qualquer t\u00e9cnica, de peito, de costas, ou \u00e0 cachorrinho, sem ritmo nem nada, um verdadeiro \u201csalve-se na \u00e1gua quem puder!\u201d, tamanha a confus\u00e3o dos movimentos dos bra\u00e7os e pernas.<br \/>\nO mais metido e ousado deles era o D\u00e9lio. Nadava e mergulhava bem. Em nossa turma, n\u00e3o havia quem lhe pudesse fazer frente. De nada me valeu ter engolido em jejum os tr\u00eas lambaris pequenos e vivinhos, simpatia ent\u00e3o em voga entre a gurizada, para se aprender a nadar que nem peixe. Debalde, \u00e0s manh\u00e3s, rolando pneus velhos, descia e subia a rua v\u00e1rias vezes, enfiava-me descal\u00e7o pelos pastos e vales. Diziam que esses exerc\u00edcios engrossavam as pernas e os bra\u00e7os e criavam resist\u00eancia e muque.<br \/>\n\u00c9ramos grandes. Na verdade, j\u00e1 passara o tempo de nadar em pelo, mas sempre havia os que n\u00e3o tinham cal\u00e7\u00f5es apropriados, nem queriam ficar o resto da tarde esperando a cal\u00e7a enxugar ao sol, se nadassem com ela. Depois daquele dia em que um meganha, tirado a valent\u00e3o, apreendeu-nos a roupa e nos dispersou nuzinhos pelo pasto, com tiros para o ar, nenhum menino se atreveu a entrar pelado na \u00e1gua. Mas passam-se os dias. Vem o calor, os companheiros a gritar e a mergulhar na \u00e1gua fresquinha e clara. A tenta\u00e7\u00e3o vence ao medo \u00e0 pol\u00edcia. Os olhos circunvagam ao redor, n\u00e3o se v\u00ea nenhuma mulher ou menina por perto. Ent\u00e3o, cai fora a camisa, os dedos l\u00e9pidos escorregam pelos suspens\u00f3rios. Mais outra olhadela. Por fim, caem tamb\u00e9m as cal\u00e7as.<br \/>\n&#8211; L\u00e1 vou eu, tamb\u00e9m!E tim-bum, tim-bum, tim-bum dentro da \u00e1gua.<br \/>\nOs moleques da cidade, quando viam meninas por perto, viraram uns dem\u00f4nios. S\u00f3 eles queriam saltar e nadar, rendinhas na cabe\u00e7a, cal\u00e7\u00f5es de cores comprados em lojas, bem diferentes de nossas cal\u00e7as velhas, com suspens\u00f3rios de tiras de panos cruzadas no peito e nas costas.<br \/>\nSem trampolins, os saltos ou mergulhos eram executados dos altos barrancos marginais. Atira-se um, o seguinte, outro. Certo dia, nem sei como, ao dar o mergulho, cuido que o impulso foi demasiado violento, e meu corpo girou no ar. Choveram aplausos, enquanto eu emergia atabalhoado das \u00e1guas, depois de ter engolido bons sorvos. Meus amigos me pediram, impuseram que repetisse a fa\u00e7anha.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Chega por hoje. Outro dia.<br \/>\nNo domingo seguinte, voltei ao a\u00e7ude. Sentia-me seguro do meu sucesso &#8211; um salto mortal perfeito, terminado por um mergulho. A rapaziada da cidade em peso. Algumas meninas. N\u00e3o entrei logo na fila dos saltadores. Queria dar-lhes oportunidade de mostrarem primeiro o que iriam exibir. Deixei-os pular \u00e0 vontade.<br \/>\nContive-me. A provoca\u00e7\u00e3o despertou ainda mais o interesse dos espectadores. Como o D\u00e9lio, alguns julgavam que o salto mortal daquele dia fora casual, e eu seria incapaz de repeti-lo. At\u00e9 meus pr\u00f3prios amigos duvidavam de mim.<br \/>\nAproximei-me do barranco, o cal\u00e7\u00e3o bem ajustado \u00e0 cintura, encolhi a barriga, estufei o peito, levantei os bra\u00e7os para a frente e desci-os devagar em dire\u00e7\u00e3o aos p\u00e9s &#8211; procurando imitar os movimentos de um mergulhador que vi no cinema. O salto mortal saiu perfeito. Muitos gritos e aplausos. Por fim, intimei o meu rival a imitar-me:<br \/>\n&#8211; Vamos ver, D\u00e9lio, chegou a sua vez. Agora quero ver se voc\u00ea topa mesmo uma parada comigo.<br \/>\nEle n\u00e3o respondeu, abaixou a cabe\u00e7a, enrubesceu. O que poderia resultar da insist\u00eancia seria um imediato sururu. &#8211; Voc\u00eas da cidade s\u00e3o uns maricas. Ent\u00e3o, querem vir para o bra\u00e7o? &#8211; insultamos, com raiva, prontos para a briga.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andavam quase em p\u00e9 de guerra as nossas rela\u00e7\u00f5es com certos filhinhos de papai da cidade, os quais aos domingos entenderam de invadir o nosso a\u00e7ude para nadar. Ora, se eles n\u00e3o tivessem onde nadar, v\u00e1 l\u00e1! Afinal, n\u00e3o \u00e9ramos ego\u00edstas. Tinham eles a sua piscina limpa, toda cal\u00e7ada em derredor &#8211; t\u00e3o diferente do &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[33],"tags":[2570,104],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14650"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14650"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14651,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14650\/revisions\/14651"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}