{"id":14498,"date":"2017-06-02T11:55:37","date_gmt":"2017-06-02T11:55:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=14498"},"modified":"2017-06-02T11:55:37","modified_gmt":"2017-06-02T11:55:37","slug":"o-melhor-investimento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/o-melhor-investimento\/","title":{"rendered":"O Melhor Investimento"},"content":{"rendered":"<p>Desde \u00e0s 7h da manh\u00e3, o homem estava na pracinha, caminhando impaciente de um lado para outro, observando as portas fechadas do banco.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 que o banco n\u00e3o vai abrir hoje? &#8211; perguntou a sua mulher ao lado.<br \/>\n&#8211; Decerto que vai, Ernesto. Hoje \u00e9 quinta-feira. Ainda \u00e9 muito cedo. Eu n\u00e3o disse que o banco abre mais tarde? Voc\u00ea teimou em vir de madrugada.<br \/>\nNa consulta, dias antes, o m\u00e9dico examinou-o com muita aten\u00e7\u00e3o, como se fosse ele paciente rico, de quem pudesse cobrar uma fortuna.<br \/>\nFazia pouco tempo que o Ernesto morava com a fam\u00edlia na cidade, onde n\u00e3o tinha amigos nem parentes. Adoecera h\u00e1 cerca de um ano. Des\u00e2nimo, nenhuma vontade de sair de casa, nem disposi\u00e7\u00e3o para trabalhar. Aposentou-se por invalidez. A mulher ajudava nas despesas da casa, lavando e passando trouxas de roupas da vizinhan\u00e7a.<br \/>\n&#8211; Vamos andando, Ernesto &#8211; disse a mulher. Acho que j\u00e1 est\u00e3o abrindo as portas do banco.<br \/>\n&#8211; Se n\u00e3o chegou o dinheiro da aposentadoria, o que a gente vai fazer? Voc\u00ea ouviu bem? N\u00e3o quero preocupar voc\u00ea, mas sinto que minha sa\u00fade est\u00e1 encrencada.<br \/>\n&#8211; Que besteira, Ernesto! Uma doencinha \u00e0-toa. Todo mundo fica doente. Eu n\u00e3o andei pertinho da cova?<br \/>\n&#8211; Cruz-credo! J\u00e1 n\u00e3o chega eu doente em casa?<br \/>\nDentro da ag\u00eancia, Ernesto caminhou lento e tr\u00eamulo para o balc\u00e3o, receoso e disse.<br \/>\n&#8211; Por favor, chegou a minha aposentadoria? \u2013 perguntou o Sr. Ernesto, aflito. &#8211; Qual o seu nome?- Ernesto Martins. &#8211; Um momentinho, Sr. Ernesto, que vou ver. O funcion\u00e1rio examinou o arquivo, repetindo baixinho o nome. N\u00e3o encontrou o recibo.<br \/>\n-J\u00e1 recebeu alguma vez por esta ag\u00eancia?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, senhor. Estou aposentado faz cinco meses.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 por isso que ainda n\u00e3o chegou. O Sr. Ernesto ficou meio engasgado com a not\u00edcia.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 que vai demorar muito?<br \/>\n&#8211; Creio que n\u00e3o. O primeiro pagamento sempre atrasa um pouco.<br \/>\n&#8211; Quando, mais ou menos?<br \/>\n&#8211; No fim da semana. N\u00e3o \u00e9 certo. Pode at\u00e9 chegar antes. T\u00e3o conturbado, o pobre do homem mal conseguia proferir o seu habitual \u201cmuito obrigado\u201d. Olhou para a mulher, ela tinha l\u00e1grimas nos olhos. Voltou humilde a dirigir-se ao atencioso funcion\u00e1rio:<br \/>\n&#8211; Sabe, Sr. Resende, \u00e9 que preciso tanto desse dinheiro para comprar os rem\u00e9dios que o doutor receitou.<br \/>\nEnfiou a m\u00e3o no bolso e retirou uma folha dobrada. &#8211; Est\u00e1 aqui a receita. O m\u00e9dico disse que n\u00e3o posso ficar sem os rem\u00e9dios. Me aposentaram por invalidez. Eu preciso trabalhar, tenho fam\u00edlia, mas o corpo n\u00e3o ajuda. &#8211; Quanto o senhor espera receber da aposentadoria?<br \/>\n&#8211; Me disseram que d\u00e1 uns trezentos cruzeiros por m\u00eas.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 que o Banco n\u00e3o podia adiantar um pouquinho do dinheiro para comprar os rem\u00e9dios? &#8211; aventurou ele. &#8211; Vamos ver. De quanto o senhor precisa no momento?<br \/>\nO Sr. Ernesto pensou, fez as contas, consultou a mulher e disse:<br \/>\n&#8211; Se n\u00e3o for pedir muito, cem cruzeiros. J\u00e1 fui na farm\u00e1cia saber o pre\u00e7o do rem\u00e9dio. Eu pago tudo direitinho. Aqui est\u00e1 o meu papel da aposentadoria. N\u00e3o estou mentindo. O Banco pode ficar com ele, como garantia.<br \/>\n&#8211; O senhor acha que cem cruzeiros ajudam?<br \/>\n&#8211; Santo Deus! Ajudam muito. Compro os rem\u00e9dios e ainda sobra para a comida das crian\u00e7as. Faz mais de m\u00eas que n\u00e3o vejo um tost\u00e3o em casa.<br \/>\nO funcion\u00e1rio Resende dirigiu-se \u00e0 caixa e voltou pouco depois.<br \/>\n&#8211; O banco vai adiantar trezentos cruzeiros. Assim sobra mais um pouco.<br \/>\nA fisionomia do Sr. Ernesto abriu-se num grande sorriso.<br \/>\n&#8211; O mo\u00e7o fala s\u00e9rio? N\u00e3o precisa tanto assim. Quando posso receber o dinheiro? &#8211; Agorinha mesmo.<br \/>\nO Resende retirou as c\u00e9dulas do bolso e entregou-as ao aposentado.<br \/>\n&#8211; Leve quinhentos cruzeiros. Rem\u00e9dio \u00e9 caro. E comida tamb\u00e9m.<br \/>\n&#8211; \u00c9 muito dinheiro, mo\u00e7o! &#8211; Deus lhe pague, Sr. Resende. Cad\u00ea a letra para mim assinar?- Confio no senhor. N\u00e3o precisa assinar nada. &#8211; Vai cobrar muito juro?- N\u00e3o se preocupe. Esque\u00e7a os juros. O Sr. Ernesto apertou o dinheiro entre os dedos, meteu a m\u00e3o no bolso e saiu agradecendo e satisfeito. \u00c0 porta da farm\u00e1cia, ap\u00f3s comprar os rem\u00e9dios, o Sr. Ernesto estacou. &#8211; O que foi? Esqueceu alguma coisa?- Mulher, se eu morrer, voc\u00ea paga minha d\u00edvida e deixa limpo meu nome? &#8211; Que bobagem! Pare de falar besteiras. Voc\u00ea vai tomar os rem\u00e9dios e sarar logo. Os quinhentos cruzeiros serviram para os rem\u00e9dios, a comida das crian\u00e7as e o sepultamento do Sr. Ernesto, ocorrido semanas depois.<br \/>\nO Resende, em conversa com um colega, muito pesaroso lamentou que o homem o tivesse procurado tarde demais. &#8211; Qual o qu\u00ea, Resende! Voc\u00ea deve \u00e9 chorar o dinheiro jogado fora \u2013 disse com ironia o colega.<br \/>\n-Voc\u00ea est\u00e1 muito enganado. A d\u00edvida do falecido est\u00e1 quitada. N\u00e3o vou cobrar um centavo da vi\u00fava. Como bom aplicador, eu n\u00e3o queria perder a oportunidade de fazer o investimento que me vai garantir o capital com elevados juros por muitos, e muitos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde \u00e0s 7h da manh\u00e3, o homem estava na pracinha, caminhando impaciente de um lado para outro, observando as portas fechadas do banco. &#8211; Ser\u00e1 que o banco n\u00e3o vai abrir hoje? &#8211; perguntou a sua mulher ao lado. &#8211; Decerto que vai, Ernesto. Hoje \u00e9 quinta-feira. Ainda \u00e9 muito cedo. 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