{"id":14271,"date":"2017-05-19T12:10:43","date_gmt":"2017-05-19T12:10:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=14271"},"modified":"2017-05-19T12:10:43","modified_gmt":"2017-05-19T12:10:43","slug":"o-campinho-das-peladas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/o-campinho-das-peladas\/","title":{"rendered":"O campinho das peladas"},"content":{"rendered":"<p>As peladas come\u00e7aram com a bola de borracha que o Totonho ganhou do pai no dia de seu anivers\u00e1rio de 15 anos. Eram elas no meio da rua. Camisas, sapatos, peda\u00e7os de tijolos ou montes de capim funcionavam como traves. Os menores, empoleirados nos barrancos marginais da rua, gritavam a valer, ora a aplaudir, ora a criticar. Quando um jogador estava com a bola \u00e0 porta do gol advers\u00e1rio, ensaiando o chute certeiro e inflamado pela torcida, o estridente buzinar de um caminh\u00e3o, ou autom\u00f3vel, obrigava os jogadores a deixar o campo revoltados e a gritar palavr\u00f5es.<br \/>\nMais tarde, conseguimos a bola de capot\u00e3o \u00e0 custa dos ossos catados por n\u00f3s nos pastos e beiras de rio e vendidos a centavo o quilo ao seu Cambucar, que pagava quanto queria e quando lhe convinha. N\u00e3o era bola nova. Tinha pequenos remendos, mas duraria muito, se procurassem evitar os arames farpados das cercas e os pneus dos carros e caminh\u00f5es.<br \/>\n&#8211; J\u00e1 temos a bola. Agora falta o campinho \u2013 disse Totonho, entusiasmado com a aquisi\u00e7\u00e3o da bola.<br \/>\n&#8211; Isso mesmo. Um campinho s\u00f3 para n\u00f3s &#8211; aplaudimos.<br \/>\nDurante v\u00e1rios dias, andamos pelos arredores \u00e0 procura de terreno. Quer\u00edamos ter onde jogar, meter o p\u00e9 na bola com toda a for\u00e7a, sem receio de ela estilha\u00e7ar vidra\u00e7as de vizinhos e criar confus\u00e3o para nossos pais, ou cair em quintais vigiados de bravos c\u00e3es.<br \/>\nAp\u00f3s muita procura, soubemos que o turco Nicolau tinha pequena \u00e1rea de pasto abandonada. Corrermos a procur\u00e1-lo. A princ\u00edpio, ele negou. Disse que aquele ano, se as chuvas ajudassem, iria plantar milho nele. Depois de inteirar-se de que n\u00f3s quer\u00edamos o terreno para us\u00e1-lo como campinho de futebol, ele mudou logo de ideia.<br \/>\n&#8211; Quando menino, eu gostava muito de jogar bola. Vou ajudar voc\u00eas.<br \/>\n&#8211; Quanto o senhor vai cobrar de aluguel?<br \/>\n&#8211; Nada! Nada! Voc\u00eas limpam o pasto bem limpinho, e ele \u00e9 de voc\u00eas.<br \/>\nNaquele mesmo dia, corremos para conhecer o terreno. Ficamos pasmados:<br \/>\n&#8211; Minha Nossa! Quanta sujeira!<br \/>\n&#8211; De gra\u00e7a, ainda \u00e9 caro. Seria loucura aceitar. Se ao menos o turco mandasse limpar ele para n\u00f3s&#8230;<br \/>\nEra um terreno entre o aterro da estrada de ferro e o ribeir\u00e3o, entulhado de latas velhas, garrafas quebradas e cacos de vidro, cercado parte de arame enferrujado e parte de mandacarus. A mi\u00fado, espalhavam-se moitas de capim barba-de-bode misturadas com unhas-de-gato bem crescidas. Pelas dimens\u00f5es, planura e localiza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que daria excelente campinho. Mas a trabalheira que ir\u00edamos ter deixava-nos desanimados. Ajustar um roceiro para o servi\u00e7o mais pesado foi a ideia por todos aplaudida, mas n\u00e3o vingou. E dinheiro? Tamb\u00e9m nos pareceu dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que quisesse trabalhar para crian\u00e7as e de gra\u00e7a.<br \/>\nMesmo assim, decidimos enfrentar o desafio de levar avante o t\u00e3o ambicionado desejo. J\u00e1 n\u00e3o era somente o grupo do in\u00edcio. Ouvidos os coment\u00e1rios sobre o futuro campinho, outros meninos aderiram ao trabalho, esperan\u00e7osos de serem um dia convidados para integrar o time da rua.<br \/>\nPara o in\u00edcio dos trabalhos, cada um levou a ferramenta de que podia dispor. Eram fac\u00f5es, foices, p\u00e1s, picaretas, enxad\u00f5es, rastelos, tudo quanto pudesse ser utilizado na limpeza. N\u00e3o havia hor\u00e1rio determinado. De manh\u00e3, de tarde, de noite, s\u00e1bados e domingos, conforme o tempo dispon\u00edvel e a capacidade f\u00edsica de cada um.<br \/>\nCom a falta de experi\u00eancia e as ferramentas velhas, sem corte e mal-encabadas, a limpeza caminhava a passo lento. Era tarefa para dois meses ou mais. A carrocinha que hav\u00edamos pedido emprestada ao Sr. Martins, puxada por dois meninos, revezados a cada quinze minutos, dava diversas viagens, levando entulhos para as margens do ribeir\u00e3o.<br \/>\nO turco Nicolau quase todos os dias aparecia por l\u00e1 e mais entusiasmado que n\u00f3s. Andava todo o terreno, como se estivesse a fiscalizar os servi\u00e7os. \u00c0s vezes, pegava da enxada e carpia pequenos trechos que n\u00e3o estavam do seu agrado.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As peladas come\u00e7aram com a bola de borracha que o Totonho ganhou do pai no dia de seu anivers\u00e1rio de 15 anos. Eram elas no meio da rua. Camisas, sapatos, peda\u00e7os de tijolos ou montes de capim funcionavam como traves. Os menores, empoleirados nos barrancos marginais da rua, gritavam a valer, ora a aplaudir, ora &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[33],"tags":[2506,104],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14271"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14271"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14272,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14271\/revisions\/14272"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}