{"id":13365,"date":"2017-03-31T11:39:52","date_gmt":"2017-03-31T11:39:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=13365"},"modified":"2017-03-31T11:39:52","modified_gmt":"2017-03-31T11:39:52","slug":"o-novo-gerente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/o-novo-gerente\/","title":{"rendered":"O novo gerente"},"content":{"rendered":"<p>Lembra-me bem o dia em que o Sr. Vasco chegou \u00e0 cidade para ocupar a ger\u00eancia do banco. Ansioso, fui com alguns colegas \u00e0 esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria para receb\u00ea-lo.<br \/>\n&#8211; Meu nome \u00e9 Marcelo. Sou o subgerente da ag\u00eancia. Eu e colegas vimos dar-lhe as boas-vindas e colocar-nos \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Muito grato pela amiga acolhida.<br \/>\nTive boa impress\u00e3o dele. Apenas estranhei que, vindo de t\u00e3o longe, n\u00e3o trouxesse consigo ningu\u00e9m da fam\u00edlia.<br \/>\nAventurei-me a perguntar:<br \/>\n&#8211; Veio sozinho, Sr. Vasco?<br \/>\n&#8211; Sim. Minha fam\u00edlia \u00e9 grande, mulher e seis filhos. Achei que n\u00e3o devia traz\u00ea-los.<br \/>\nNotava-se-lhe nas palavras acentuado amargor, quando aludia \u00e0 fam\u00edlia distante. \u00c0 noite, ap\u00f3s o jantar, eu ia visit\u00e1-lo no hotel e fic\u00e1vamos at\u00e9 tarde conversando. Numa das vezes, n\u00e3o o encontrei no hotel. Estava num bar, sozinho, fumando e tomando cerveja.<br \/>\n&#8211; Quer acompanhar-me, Marcelo?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Obrigado. Jantei agora h\u00e1 pouco.<br \/>\nDentro do banco, o Sr. Vasco era chefe exemplar e humano. Tinha sempre uma palavra amiga e de conforto:<br \/>\n&#8211; Eu tamb\u00e9m venho errando, caro colega. S\u00f3 que para os meus erros, muito piores, a vida n\u00e3o apresenta nenhuma forma de estorno, como na contabilidade.<br \/>\nII<br \/>\nUm s\u00e1bado, \u00e0 noite, estava eu em casa. Um conhecido foi buscar-me. O Sr. Vasco embriagava-se num bar do centro. Encontrei-o mal, a cabe\u00e7a recostada \u00e0 mesa. Levei-o para o hotel. Passei a noite numa cadeira a seu lado, esperando-o curar-se da bebedeira. De manh\u00e3, acordou melhor e estranhou minha presen\u00e7a no quarto:<br \/>\n&#8211; Bebi um pouco mais, n\u00e3o foi, amigo? E eu que no \u00edntimo \u00e0s vezes cheguei a condenar os homens por beberem at\u00e9 a embriaguez, sem nunca sondar-lhes os motivos que os levavam a isso. Julgava-os fracos e irrespons\u00e1veis. Estou come\u00e7ando a pagar pelas minhas cr\u00edticas,<br \/>\n&#8211; Roda-me a cabe\u00e7a. \u00c9 a primeira vez que fico assim. Sempre haver\u00e1 a primeira vez, n\u00e3o \u00e9, colega? Obrigado. Muito obrigado, Marcelo, pela sua companhia.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o fiz nada para agradecer-me.<br \/>\nO Sr. Vasco, conservando-se deitado na cama, entrou a falar dos filhos e lamentava estar separado deles:<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o queria que trabalhassem antes de completarem os estudos. Sonhava v\u00ea-los diplomados. Quando da chegada do primog\u00eanito, quantos castelos. Erguendo-o nos bra\u00e7os, eu prognosticava ufanoso: \u201ceste ser\u00e1 m\u00e9dico!\u201d \u201cOu padre!\u201d acrescentava a mulher, muito religiosa. Chegaram outros, com pequenos intervalos, e eram sempre recebidos com redobrado carinho, e cada qual vinha como b\u00ean\u00e7\u00e3o aumentar a felicidade do lar. Depois, a vida foi-se tornando dif\u00edcil, os vencimentos insuficientes para os gastos da casa e das doen\u00e7as.<br \/>\nEu n\u00e3o sabia o que dizer, nem mesmo me atrevia a interromper o seu desabafo. E ele continuou:<br \/>\n&#8211; Os meninos iam bem nos estudos. De repente, tudo deu para tr\u00e1s, quando um a um deixaram o gin\u00e1sio. Certo dia, o mais velho chegou da rua bradando, radiante: \u201cPapai, mam\u00e3e, arrumei servi\u00e7o numa loja. Vou ganhar duzentos cruzeiros por m\u00eas.\u201d<br \/>\nCalou-se, por instantes, o Sr. Vasco:<br \/>\n&#8211; Essa foi mais uma desilus\u00e3o. A ela, seguiram-se outras, quando os demais filhos, ainda em idade de estudo, sa\u00edram tamb\u00e9m \u00e0 cata de empreguinhos. Confesso que fracassei como pai. N\u00e3o consegui educar os filhos como devia.<br \/>\n&#8211; O senhor fez o poss\u00edvel. Nem tudo corre como a gente planeja.<br \/>\nIII<br \/>\nNa segunda-feira, antes do expediente do banco, apressei-me a visitar o Sr. Vasco. Encontrei-o melhor, falava mais claro. Deu-me para ler a carta recebida de casa, dias antes, longa e carinhosa, contando sobre os filhos e as saudades do pai ausente. E comentou:<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembra-me bem o dia em que o Sr. Vasco chegou \u00e0 cidade para ocupar a ger\u00eancia do banco. Ansioso, fui com alguns colegas \u00e0 esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria para receb\u00ea-lo. &#8211; Meu nome \u00e9 Marcelo. Sou o subgerente da ag\u00eancia. 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