{"id":12970,"date":"2017-03-10T13:11:34","date_gmt":"2017-03-10T13:11:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=12970"},"modified":"2017-03-10T13:11:34","modified_gmt":"2017-03-10T13:11:34","slug":"aprendiz-de-sapateiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/aprendiz-de-sapateiro\/","title":{"rendered":"Aprendiz de Sapateiro"},"content":{"rendered":"<p>Comecei a trabalhar de aprendiz de sapateiro na oficina do Sr. Aristides, antigo conhecido de meu pai, com o sal\u00e1rio de dez cruzeiros por semana.<br \/>\nUma babil\u00f4nia a oficina. Bancas ao longo do sal\u00e3o e variado tipo de ferramentas. O soalho atapetado de retalhos de couro, sola e papel\u00e3o. Pregos e taxas por todos os lados.<br \/>\nFui logo designado ajudante do Sr. P\u00e9pi, o chefe da oficina, um italiano de meia-idade, rosto vermelho e grosso de corpo, excelente sapateiro e melhor consumidor de cacha\u00e7a. O patr\u00e3o, \u00e0 parte, recomendou-me que fosse obediente ao Sr. P\u00e9pi, prestasse aten\u00e7\u00e3o \u00e0s suas explica\u00e7\u00f5es e nunca mexesse nas ferramentas dele, principalmente no afiador de facas.<br \/>\n&#8211; Sim, senhor. Ouvi bem.<br \/>\nEra costume dos sapateiros mais antigos exagerar a raridade de algumas de suas ferramentas. Tinha este uma tenaz alem\u00e3; aquele, um bisegre de madeira africana; aqueloutro, um p\u00e9-de-ferro fundido na It\u00e1lia. O Sr. P\u00e9pi elogiava o seu afiador de facas, uma pedra cor de chumbo, formato de charuto grande, sem conhecer-lhe a nacionalidade. Para ele, n\u00e3o havia outro que o substitu\u00edsse nem ao menos se igualasse e conservava-o azeitado dentro do estojo de madeira j\u00e1 pu\u00eddo do tempo.<br \/>\n&#8211; Sabe, menino, isto foi tudo quanto herdei de meu saudoso pai. Esta pedra \u00e9 o meu tesouro. Por ela, sou capaz de fazer o diabo.<br \/>\nN\u00e3o tardou muito, come\u00e7ou o Sr. P\u00e9pi a tro\u00e7ar de mim diante dos empregados. Gostava de chalacear, de v\u00ea-los rir \u00e0 custa do novo aprendiz. Mandava-me fazer servi\u00e7os absurdos, como mexer \u00e1gua suja at\u00e9 virar cola. Diariamente, eu batia sola horas a fio, sem necessidade, um toque-toque intermin\u00e1vel que me feria os ouvidos e deixava ardendo os joelhos por v\u00e1rios dias. O homem dava o cavaco por um trote, macaqueava no sal\u00e3o, repetia anedotas picantes, sem importar-se com a presen\u00e7a de quem quer que fosse. E ria alto, e gargalhava. Ningu\u00e9m o censurava. Ao contr\u00e1rio, riam tamb\u00e9m, porque toda asneira dita por um superior tem de ser aplaudida pelos subordinados.<br \/>\nNas ocasi\u00f5es em que chegava mais embriagado \u00e0 oficina, tornava-se intoler\u00e1vel e perigoso. Ro\u00e7ando a faca em meu pesco\u00e7o, com certo terror macabro nos olhos congestionados pelo \u00e1lcool, perguntava:<br \/>\n&#8211; Quer morrer agora, menino?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o brinque assim, Sr. P\u00e9pi. N\u00e3o quero morrer, n\u00e3o. Sou muito novo.<br \/>\nEu vivia apavorado. Antes de entrar na oficina de manh\u00e3, ou na volta do almo\u00e7o, persignava-me e rezava o pai-nosso e a ave-maria, para n\u00e3o encontrar b\u00eabado o Sr. P\u00e9pi.<br \/>\nUma segunda-feira, o Sr. P\u00e9pi chegou \u00e0 sapataria mais embriagado que de costume. Cambaleando no sal\u00e3o, encaminhou-se para a sua banca, a trope\u00e7ar em pequenos rolos de sola. E resmungava, e proferia palavr\u00f5es. Agarrou-se com as m\u00e3os na banca e come\u00e7ou a tentativa para acomodar-se<br \/>\nFoi a primeira vez que me encontrei sozinho na banca. Sentei-me imponente no pr\u00f3prio lugar do Sr. P\u00e9pi, olhei para os lados, a ver se o Pedrinho ou outro aprendiz invejoso me observava. Por instantes, tive a presun\u00e7\u00e3o de ser um competente oficial de sapateiro.<br \/>\nVi no fundo da gaveta, bem guardado, o estojo do afiador de facas. Agora, eu tinha tempo de sobra para examin\u00e1-lo. Quando o quis tocar, pareceu-me ouvir a voz do Sr. P\u00e9pi: \u201cesta pedra \u00e9 o meu tesouro, menino. Por ela sou capaz de fazer o diabo.\u201d Ora, uma simples pedra, como tantas outras na oficina! Entretanto, sentia-me curioso de experiment\u00e1-lo. Acaso teria ele algum poder m\u00e1gico de afiar as facas melhor e diferente dos outros? Peguei no estojo. Parecia estar profanando uma rel\u00edquia sagrada. Minhas m\u00e3os tremiam tanto que, ao abrir o estojo, o afiador caiu bem em cima do p\u00e9-de-ferro e partiu-se ao meio.<br \/>\n&#8211; Nossa M\u00e3e! Estou perdido! &#8211; exclamei, horrorizado, procurando conter a voz, para n\u00e3o ser ouvido.<br \/>\nA ponto de sofrer um desmaio, apanhei os peda\u00e7os e logo os recolhi ao estojo. O suor porejava-me do rosto, o pavor dominou-me. Cuidei de colar as partes, mas quem n\u00e3o daria pela emenda logo \u00e0 primeira vista? No momento, n\u00e3o me prestava a nenhum trabalho. Ningu\u00e9m presenciou o desastre. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o me isentaria do castigo.<br \/>\nNos dois dias ap\u00f3s o incidente, n\u00e3o fui trabalhar. Fiquei zanzando pelas ruas e voltava para casa \u00e0s horas do costume. Pagaria caro por minha curiosidade e desobedi\u00eancia. Por nada, o Sr. P\u00e9pi ro\u00e7ava-me a faca na garganta&#8230;<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecei a trabalhar de aprendiz de sapateiro na oficina do Sr. Aristides, antigo conhecido de meu pai, com o sal\u00e1rio de dez cruzeiros por semana. Uma babil\u00f4nia a oficina. 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