{"id":12641,"date":"2017-02-17T10:23:29","date_gmt":"2017-02-17T10:23:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=12641"},"modified":"2017-02-17T10:23:29","modified_gmt":"2017-02-17T10:23:29","slug":"a-vinganca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/a-vinganca\/","title":{"rendered":"A Vingan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Raramente havia brigas entre os meninos da Rua Tabo\u00e3o. \u00c9ramos todos amigos. Eu gozava de prest\u00edgio, talvez por ser o \u00fanico que possu\u00eda bicicleta e bola de capot\u00e3o.<br \/>\nNum s\u00e1bado, chegou \u00e0 rua a mudan\u00e7a de novos moradores. Curiosos, todos corremos a espiar. Logo nos tornamos conhecidos do Berto, o filho \u00fanico da fam\u00edlia rec\u00e9m-chegada da ro\u00e7a. Um jeca, mais velho que eu tr\u00eas ou quatro anos, alto e forte. A pouco e pouco, ele se foi infiltrando em nossa turma. Lia meus livros de hist\u00f3ria, brincava com os meus carrinhos. Tinha pena de v\u00ea-lo t\u00e3o pobre e sem nenhum futuro habitar um c\u00f4modo de meia-\u00e1gua em fundos de quintal.<br \/>\nComo se n\u00e3o bastasse minha amizade e estima por ele, ou porque entrou a inveja e a cobi\u00e7a a domin\u00e1-lo, come\u00e7aram desde logo suas peti\u00e7\u00f5es:<br \/>\n&#8211; Alcides, voc\u00ea me d\u00e1 estas bolinhas de gude?<br \/>\n&#8211; Dou sim, Berto. Pode levar.<br \/>\nDepois, levou a peteca, o bilboqu\u00ea. N\u00e3o tardou em ir ao exagero de pedir-me a bicicleta. N\u00e3o foi f\u00e1cil consegui-la de meu pai, tive de prometer-lhe estudar com afinco e n\u00e3o repetir ano.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o posso dar a bicicleta, Berto. Dou a bola de capot\u00e3o, ou outro brinquedo qualquer. Pode escolher.<br \/>\nO Berto nada compreendeu. Queria a bicicleta. Ficou de mal comigo e come\u00e7ou a provocar-me. Se me visse passar de bicicleta, ele se punha de lado, torcia o guid\u00e3o, eu voava longe.Sua figura impunha respeito, e eu n\u00e3o me encorajava a enfrent\u00e1-lo.<br \/>\nAcabou a minha tranquilidade. Bastava eu sair \u00e0 rua, para o moleque azucrinar-me. Ora, eu queria brincar com os amigos e n\u00e3o me sujeitei a prender-me em casa por causa dele. Eu estranhava que ele, j\u00e1 em idade de trabalhar e de fam\u00edlia pobre, vivesse entre menores, tramando intrigas.<br \/>\nA princ\u00edpio, meus amigos chegaram a revoltar-se contra o intruso, por\u00e9m, reconhecendo sua superioridade nas brigas, a maioria aliou-se a ele. Em pouco tempo, ca\u00ed em descr\u00e9dito. At\u00e9 os pequenos agora come\u00e7aram a insultar-me, sem qualquer raz\u00e3o, induzidos pelo Berto. Este riscava dois c\u00edrculos na terra e apontando um de cada vez dizia:<br \/>\n&#8211; Esta \u00e9 a m\u00e3e do Francisco; aquela, a do Alcides. Quem for mais homem, cospe e pisa na m\u00e3e do outro!<br \/>\nO meu advers\u00e1rio, muito mais fraco que eu, fiado na prote\u00e7\u00e3o do Berto, pisava e cuspia em minha m\u00e3e. Eu me torturava, porque ela era falecida, e sua mem\u00f3ria ultrajada. Aquela vez, n\u00e3o tive m\u00e3os em mim e reagi, mas o Berto logo tomou as dores pelo Alcides, e eu fugi acovardado.<br \/>\nSe eu o vencesse numa briga, teria restitu\u00edda a liberdade e o prest\u00edgio. Animado com essa remota possibilidade de reabilita\u00e7\u00e3o, comecei a fazer gin\u00e1stica de manh\u00e3 num galho do pessegueiro de casa, a tomar banhos frios. \u00c0 noite, trancado no quarto, diante do espelho, dava sopapos a esmo, desviava-me de chutes e socos imagin\u00e1rios.<br \/>\nEm meados de janeiro, fui com meu pai \u00e0 fazenda de um seu amigo. Fiquei na ro\u00e7a menos de uma semana. Voltei \u00e0s v\u00e9speras de embarcar para o internato em S\u00e3o Paulo. Levei comigo a covardia e os insopit\u00e1veis desejos de enfrentar o Berto.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raramente havia brigas entre os meninos da Rua Tabo\u00e3o. \u00c9ramos todos amigos. Eu gozava de prest\u00edgio, talvez por ser o \u00fanico que possu\u00eda bicicleta e bola de capot\u00e3o. Num s\u00e1bado, chegou \u00e0 rua a mudan\u00e7a de novos moradores. Curiosos, todos corremos a espiar. 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