{"id":12515,"date":"2017-02-10T10:38:42","date_gmt":"2017-02-10T10:38:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=12515"},"modified":"2017-02-10T10:38:42","modified_gmt":"2017-02-10T10:38:42","slug":"meu-crime","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/meu-crime\/","title":{"rendered":"Meu Crime"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0custa de muita procura e pedidos, consegui servi\u00e7o tempor\u00e1rio como auxiliar de guarda-livros, com o ordenado de trezentos cruzeiros mensais.<br \/>\nEu estava perdendo noites de sono por causa de uma infec\u00e7\u00e3o dent\u00e1ria. Logo que recebi o primeiro ordenado, procurei o dentista. Chamava-se Lourival Magalh\u00e3es. O or\u00e7amento importou em quinhentos cruzeiros. Propus o pagamento de cem de entrada e o restante em presta\u00e7\u00f5es. Ele aceitou as condi\u00e7\u00f5es. Disse-me que terminaria o servi\u00e7o dentro de um m\u00eas, ou pouco mais.<br \/>\n&#8211; C\u00e9lio, voc\u00ea procurou o dentista certo &#8211; dizia ele, batendo-me nos ombros.<br \/>\nEu frequentava o gabinete dia sim, dia n\u00e3o, ap\u00f3s cumprido meu hor\u00e1rio de trabalho.<br \/>\nMuitas despesas, longe de casa. Para n\u00e3o atrasar o pagamento da pens\u00e3o, deixei acumular duas presta\u00e7\u00f5es. Expus a ele a minha situa\u00e7\u00e3o e pedi me esperasse mais um pouco, eu n\u00e3o lhe daria o menor preju\u00edzo. Ele n\u00e3o gostou do que eu disse.<br \/>\nDesse dia em diante, o tratamento mudou. No gabinete, eu esperava duas horas ou mais, enquanto outros, sob pretexto de terem hora marcada, ele os atendia primeiro. Chegada a minha vez, ligeiramente se limitava a raspar os dentes e trocar o algod\u00e3o.<br \/>\nUm dia, pouco mais afoito, medindo bem as palavras, tentei falar-lhe com calma a respeito. Ele se irritou tanto, mas tanto, omo se lhe houvesse ofendido, com os piores nomes, toda a gera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Ora, muito bem, seu C\u00e9lio! Voc\u00ea me deve presta\u00f5es atrasadas e ainda se atreve a reclamar?<br \/>\n&#8211; Vamos, seu coi\u00f3, o que espera? Suma j\u00e1 e n\u00e3o me ponha mais os p\u00e9s aqui!<br \/>\n&#8211; Mas. Doutor, o que foi que eu disse que o ofendeu tanto?!<br \/>\nN\u00e3o respondeu. Agarrou-me forte os bra\u00e7os e me empurrou para fora do gabinete. N\u00e3o contente, esbofeteou-me. Cheguei a passar por covarde. Balanceei minha situa\u00e7\u00e3o vexat\u00f3ria, longe de casa, injustamente recebendo bofet\u00f5es. \u00c0 nova investida do dentista, agora mais furioso, n\u00e3o me contive, defendi-me e esmurrei-lhe a cara com toda for\u00e7a e ira. Em seguida, outro soco e o valente cambaleou e caiu no soalho.<br \/>\n&#8211; Meu Deus, que fiz? Matei o homem!<br \/>\nFechei a boca com as m\u00e3os para n\u00e3o gritar. Ouvi ligeiros passos na escada que levava ao gabinete.<br \/>\nNa pens\u00e3o, tranquei-me no quarto. Estava atordoado. Engra\u00e7ado, procurei sempre orientar minhas a\u00e7\u00f5es pelos bons ensinamentos de meus pais. Daquela vez, n\u00e3o consegui controlar-me, perdi a cabe\u00e7a. Agora, \u00e9 tarde. Deixei morto o homem e sou um assassino.<br \/>\nAlgu\u00e9m bateu \u00e0 porta de meu quarto. Assustado, fui atender. Era o carteiro.<br \/>\nA carta era de meu pai. Como nas anteriores, perguntava pela minha sa\u00fade, recomendava-me prud\u00eancia e pedia que n\u00e3o demorasse a dar-lhe not\u00edcias, que minha m\u00e3e andava triste desde a minha sa\u00edda de casa para procurar emprego em outra cidade.<br \/>\n&#8211; Estou perdido, pai! Matei um homem. Que Deus me perdoe, e o senhor tamb\u00e9m.<br \/>\nN\u00e3o consegui pregar olho a noite toda. As badaladas do rel\u00f3gio da igreja, eu as contei todas, uma a uma, e os sons agora me pareciam l\u00fagubres. As cenas, que culminaram na morte do dentista, cruzavam-me na cabe\u00e7a.<br \/>\nN\u00e3o suportando tamanho remorso, resolvi procurar a pol\u00edcia e entregar-ne. De manh\u00e3, bem cedo, caminhei nas ruas, a olhar para os lados, apavorado com a impress\u00e3o de estar sendo seguido. \u00c0 porta de um bar, ouvi estas palavras:<br \/>\n&#8211; Bem feito! O salafr\u00e1rio do dentista recebeu o que merecia h\u00e1 muito tempo.<br \/>\nDentro de pouco, achei-me diante de um pr\u00e9dio assobradado, de paredes enegrecidas. A Delegacia de Pol\u00edcia ocupava-lhe o andar superior. Embaixo, a Cadeia P\u00fablica. Um soldado \u00e0 entrada assobiava indiferente. Havia atr\u00e1s das grades um detento. Tive a estranha sensa\u00e7\u00e3o de ver-me trancafiado, como ele, barbudo, as faces encovadas, a cumprir uma pena de dez anos, ou mais.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. 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