{"id":11936,"date":"2016-12-09T10:34:33","date_gmt":"2016-12-09T10:34:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/?p=11936"},"modified":"2016-12-09T10:34:33","modified_gmt":"2016-12-09T10:34:33","slug":"vesperas-de-aposentadoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/vesperas-de-aposentadoria\/","title":{"rendered":"V\u00e9speras de aposentadoria"},"content":{"rendered":"<p>Contava eu 29 anos de servi\u00e7o no Banco. Acabara de voltar de f\u00e9rias inesquec\u00edveis, aproveitadas com a Lara em excurs\u00f5es, at\u00e9 o \u00faltimo instante. Vivi dias de nababo, se tanta pretens\u00e3o podia ter um banc\u00e1rio. Estranhamente, ainda sobrou dinheiro.<br \/>\n&#8211; Minhas pr\u00f3ximas f\u00e9rias ser\u00e3o longas, muito longas &#8211; disse eu \u00e0 mulher, logo que chegamos da viagem.<br \/>\n&#8211; Como assim? N\u00e3o entendi.<br \/>\n&#8211; Entendeu, sim. Resolvi aposentar-me&#8230;<br \/>\n&#8211; Aposentar-se? Ser\u00e1 mesmo? Duvido muito. Caxias como voc\u00ea foi e \u00e9!<br \/>\nLara sorriu incr\u00e9dula e voltou aos trabalhos rotineiros da casa, como se nada importante tivesse ouvido.<br \/>\nNo Banco, no primeiro dia de trabalho, anunciei aos colegas:<br \/>\n&#8211; Vou pendurar as chuteiras. Quando completar um ano, deixo o Banco. Come\u00e7o hoje mesmo a cancelar no meu calend\u00e1rio, com um xis bem vermelho, os dias que faltam para aposentar-me.<br \/>\n&#8211; Fala s\u00e9rio mesmo, Chefe?<br \/>\n&#8211; Muito s\u00e9rio.<br \/>\n&#8211; Mas o Chefe \u00e9 novo, pode ainda trabalhar muitos anos. Conhe\u00e7o gerentes com mais de 40 anos de Banco e continuam cada dia mais ciumentos e agarrados ao cargo, como a uma bela jovem noiva.<br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade. Talvez tenham ficado noivos j\u00e1 em idade avan\u00e7ada. Meu interesse pelos cargos no Banco come\u00e7ou cedo, eu tinha apenas um quinqu\u00eanio.<br \/>\nEnt\u00e3o, comecei a ouvir com satisfa\u00e7\u00e3o os coment\u00e1rios sobre a vida de aposentado, as poss\u00edveis viagens sem pressa de regresso, a vis\u00e3o de um recome\u00e7o de vida liberto de press\u00f5es de clientes, de inspetores, e da enxurrada de instru\u00e7\u00f5es, muitas redigidas em estilo gong\u00f3rico e cruelmente despejadas nas ag\u00eancias \u00e0s portas dos balancetes e balan\u00e7os, \u00e9pocas de maior ac\u00famulo de servi\u00e7os e preocupa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE perguntava-me: ser\u00e1 que n\u00e3o terei o direito de viver na ociosidade o resto de meus dias? Trinta anos de dedica\u00e7\u00e3o ao Banco, sem contar os dez ou mais em que estive em pequenos empregos antes! Ap\u00f3s cerca de 40 anos de trabalho, a aposentadoria deveria chegar como pr\u00eamio e n\u00e3o como castigo.<\/p>\n<p>II<br \/>\nNuma segunda-feira, bem cedo, cheguei ao Banco. Retirei da gaveta o calend\u00e1rio e com satisfa\u00e7\u00e3o risquei mais tr\u00eas dias, o s\u00e1bado, o domingo e a segunda, comprimindo a caneta quase a ponto de perfurar o papel, como era meu novo h\u00e1bito fazer no in\u00edcio de cada semana. Sentia imenso prazer no ato. N\u00e3o entendi o que de s\u00fabito ocorreu. Durante instantes, pareceu-me estar eliminando meus pr\u00f3prios dias de vida e restavam t\u00e3o poucos. E eu os ia golpeando \u00e0 direita, \u00e0 esquerda, acima, abaixo, sem d\u00f3 nem piedade. Menos um m\u00eas, menos dois, menos tr\u00eas&#8230; Aterrorizado, deixei cair da m\u00e3o a caneta, atirei a folhinha no fundo da gaveta e nunca mais a toquei.<br \/>\nAproximavam-se os derradeiros dias. Seria mentir se afirmasse que eu estava tranquilo. Aumentava-me o pesar de deixar o Banco e os colegas, bem como o temor do salto \u00e0 vida ociosa. Os depoimentos de aposentados eram contradit\u00f3rios. Uns se arrependiam de n\u00e3o ter deixado antes o emprego. Outros, se previssem o que os aguardava, jamais teriam se aposentado. Eu n\u00e3o sabia em quem acreditar, se nos pessimistas, se nos otimistas.<br \/>\nQuando assumi a ger\u00eancia, apossei-me de desprez\u00edvel legado que vinha passando de m\u00e3o a m\u00e3o pelos colegas que me antecederam, num per\u00edodo de mais de 20 anos. O legado era uma resistente pasta de cartolina rotulada com a inscri\u00e7\u00e3o \u2018Estritamente Confidencial\u2019 e fechada a sete chaves no armarinho de a\u00e7o na sala da ger\u00eancia. Continha a pasta memorandos de advert\u00eancias, censuras e amea\u00e7as de demiss\u00e3o dirigidos pelos administradores a funcion\u00e1rios sobre emiss\u00f5es de cheques sem fundos, chegadas ao Banco com pequenos atrasos, d\u00edvidas vencidas e n\u00e3o pagas e namoros de casados com as modernas \u2018coleguinhas\u2019 rec\u00e9m-admitidas etc.<br \/>\nNada mais tendo de importante que fazer, eu matava o tempo relendo esses disparates. \u00c0s vezes, ria. Outras, revoltava-me. Entre os implicados, alguns estavam mortos havia anos, outros ainda ocupavam inspetorias ou elevados postos na sede do Banco.<\/p>\n<div class=\"mom-members\" style=\"background-color:#ffe680;border-color:#cca300;color:#665200\">Conte\u00fado somente para assinantes. Por favor fa\u00e7a o login<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contava eu 29 anos de servi\u00e7o no Banco. Acabara de voltar de f\u00e9rias inesquec\u00edveis, aproveitadas com a Lara em excurs\u00f5es, at\u00e9 o \u00faltimo instante. Vivi dias de nababo, se tanta pretens\u00e3o podia ter um banc\u00e1rio. Estranhamente, ainda sobrou dinheiro. &#8211; Minhas pr\u00f3ximas f\u00e9rias ser\u00e3o longas, muito longas &#8211; disse eu \u00e0 mulher, logo que chegamos &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[33],"tags":[104,2103],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11936"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11936"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11936\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11937,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11936\/revisions\/11937"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jornalexemplo.com.br\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}